|
A ideia do Governo é “colar o aluno a professor”, de
modo a minimizar o choque da passagem da primária para o
2.º Ciclo. No limite, admite o assessor do Ministério da
Educação (ME), será passar para seis anos o Ensino
Primário. Mas a ‘revolução’ no Ensino Básico só deverá
começar a surtir efeitos daqui a nove anos. Isto se o
Governo da altura quiser.
O novo regime de habilitações para a docência, aprovado
pelo Conselho de Ministros no final de Dezembro e que
está a aguardar a promulgação do Presidente Cavaco
Silva, prevê que os professores possam optar por
diferentes tipos de formação: pré-escolar e 1.º Ciclo ou
1.º e 2.º ciclos. Ou seja, lá para 2012, quando saírem
das universidades as primeiras centenas de professores
com mestrado, as escolas primárias vão receber docentes
com habilitações para dar aulas no 5.º e 6.º anos, tal
como os jardins-de-infância vão ter professores que
poderão ministrar também o 1.º Ciclo. A imagem de
professor-tutor (ou professor-principal,
professor-central ou professor-único, como for decidido
chamar) durante seis anos – e não quatro, como acontece
agora – poderá ser uma realidade a partir de 2016,
quando estas turmas chegarem ao 4.º ano.
Desta forma, os alunos poderão encontrar no 5.º ano não
dez professores, como actualmente, mas metade – além do
professor da primária, juntam-se os professores de
Educação Física, Educação Visual e Tecnológica e
Educação Artística.
“A medida cria a possibilidade, mas não muda o sistema.
O que importa é que o Governo da altura tenha ao dispor
um ‘stock’ de professores, se quiser arrancar com
alterações legislativas para acabar com a
descontinuidade educativa.” A mesma fonte garante que
não haverá despedimentos de docentes com estas
alterações. Pelo menos, nos próximos nove anos.
“Eventualmente, se houver, será só quando as turmas
destes professores chegarem ao 5.º ano”, adianta.
Um alargamento do ensino primário para seis anos poderá
implicar mudanças de fundo – a começar pela organização
das escolas, pois teria de se juntar os 1.º e 2.º ciclos
no mesmo espaço. “Os professores terão a mesma carga
horária, mas menos turmas”, explica o mesmo assessor.
À RTP, o secretário de Estado da Educação, Valter Lemos,
assinalou que Portugal “é o único país da Europa que tem
dez professores no 2.º Ciclo”, pelo que o Governo sentiu
“necessidade de alterar a organização, evoluindo para um
sistema mais próximo dos outros países”.
Maria José Viseu, presidente da Confederação Nacional
das Associações de Pais, considera que a proposta do
Governo “é uma mudança muito radical”. A dirigente
assinala não ser possível “comparar com outros países.
Enquanto os finlandeses andam a discutir política
educativa, em Portugal continuamos preocupados com as
crianças que ainda passam frio na escola. Estamos a
falar de realidades completamente diferentes”.
MESTRES SÓ EM 2012
Os primeiros cursos de Educação e Formação de
Professores adaptados a Bolonha começam em Setembro
deste ano. Os primeiros mestres saem em 2012.
QUATRO ANOS DECISIVOS
Os professores colocados no concurso de 2012 só chegarão
ao final da primária em Junho de 2016. É aí que se
decidirá se seguem ou não para os 5.º e 6.º anos.
MAIS VANTAJOSO PARA ALUNOS E PROFESSORES
João Dias da Silva, da Federação Nacional dos Sindicatos
da Educação, aplaude a alteração proposta. “Temos tido
um sistema em que os alunos são confrontados com dez
pessoas diferentes, dez maneiras de estar e uma
exigência totalmente diferente”, diz o sindicalista. O
plano actual, admite, “parece errado”, pois rompe com a
ligação afectiva criada com o docente. Dias da Silva
acredita que “o mesmo professor vai estar mais tempo com
os alunos, o que pode ser até mais vantajoso para
ambos”. António Avelãs, da Fenprof, vê com desconfiança
a medida. “Com um professor excessivamente generalista
tememos que haja uma diminuição da qualidade de ensino e
dos resultados das escolas.”
MODELOS COMPARATIVOS NA UNIÃO EUROPEIA
FRANÇA
- O 1.º Ciclo é composto por cinco anos de escolaridade.
Neste nível de ensino, os alunos são acompanhados por um
único professor.
- Na passagem para o 2.º Ciclo, apelidado de colégio,
cada disciplina passa a ter um professor específico.
Existem algumas excepções, como são o caso da História e
da Geografia, que são agrupadas num só docente.
- O 2.º Ciclo é composto por quatro anos.
ESPANHA
- O Ensino Primário é composto por seis anos, divididos
em três ciclos de ensino.
- Para desempenhar funções, os professores têm de ter o
título de mestre ou grau de ensino equivalente. Os
professores têm competências globais em todas as áreas
de ensino.
- São abordados temas do meio ambiente, social e
cultural, educação física, educação artística, língua
castelhana e língua oficial da região, língua
estrangeira e matemática.
- O ensino da Música, Educação Física e Língua
Estrangeira é feito por professores especializados.
- É dedicada uma hora à leitura. Cidadania e direitos
humanos são também abordados.
FINLÂNDIA
- O Ensino Primário é composto por seis anos de
escolaridade.
- Nesse período, a escola é abrangente. Um professor
ensina quase todas as matérias.
- O currículo inclui o estudo da língua e literatura
finlandesas, línguas estrangeiras, estudo ambiental,
educação cívica, religião, ética, história, estudos
sociais, matemática, física, química, biologia,
geografia, educação física, música, artes e economia
doméstica.
- Os objectivos traçados são os mesmos para o país
inteiro, mas cada região organiza o seu plano de
estudos.
- Os distúrbios da fala, dificuldades de leitura ou
necessidades especiais têm acompanhamento específico.
- Os últimos três anos do ensino Básico são então
leccionadas por professores de matérias específicas.
REGRAS DE BOLONHA
A licenciatura leva três anos e equivale a 180 créditos.
O mestrado dura ano e meio a dois anos, o que equivale a
120 créditos
RESULTADOS ESCOLARES
Os últimos dados do Ministério da Educação mostram que
há mais 21 mil alunos e menos sete mil professores nas
escolas
SEGURANÇA ALIMENTAR
Os professores vão dispor de material pedagógico para
incutir hábitos de higiene e segurança alimentar nos
alunos
SECUNDÁRIO CRESCE
O Ensino Secundário foi dos ciclos que registaram maior
subida no número de alunos matriculados, a par do ensino
profissional
COMPUTADOR PARA DEZ
Nas escolas portuguesas, existe um computador com acesso
à internet para cada dez alunos, indicador que diminui
face a 2005
Diana Ramos / Edgar Nascimento |